Editorial

Aprendizagem Criativa

  • Maria Cecília Calani Baranauskas Instituto de Computação – UNICAMP
  • José Armando Valente NIED & Instituto de Artes – UNICAMP

Resumo

Sobre o tema deste número – Aprendizagem Criativa

          A criatividade tem sido reconhecida como um fator importante na aprendizagem. Apesar de não haver uma definição precisa para o conceito, é consensual que ela envolve a produção de um resultado; portanto, a interação que ocorre nessa produção pode ser um ponto de partida para a compreensão do fenômeno criativo em diferentes domínios e, em particular no processo de aprender.

          As interações entre pessoas e artefatos externos são centrais para a criatividade (Shön, 1987). A análise de Schön sobre a resolução criativa de problemas na prática profissional descreve um processo de reflexão dentro (in) e sobre (on) a ação, envolvendo a representação externa e a avaliação de ideias. Cziksentmiyalhi (1996) e Sawyer (2003) desenvolveram um entendimento da criatividade relacionado a como um indivíduo ou grupo “flui” à medida que produzem resultados criativos efetivamente. Trata-se de um sentimento de grande absorção, engajamento, satisfação e habilidade, denominado “fluxo” - durante o qual as preocupações temporais (tempo, comida, ego etc.) são geralmente ignoradas.

          Em particular, as tecnologias computacionais, além de serem elas próprias produtos de processos criativos, também assumem formas variadas permeando domínios criativos. Há um número crescente de pesquisas explorando as relações entre computadores e criatividade (Coughlan; Johnson, 2009); Coughlan e Johnson argumentam que a interação criativa pode ser vista em termos de três perspectivas: interação produtiva - engajamento focado no desenvolvimento de um resultado criativo, interação estrutural - o desenvolvimento das estruturas nas quais a produção ocorre, e interação longitudinal - o desenvolvimento a longo prazo, de recursos e relacionamentos que aumentam o potencial criativo.

          A perspectiva da "interação produtiva" pode ser definida como a geração, externalização e avaliação de ideias, trabalhando em direção ao objetivo explícito de obter um resultado criativo. É marcada por um movimento iterativo da geração de ideias, usando processos de desenho exploratório, construção de protótipos de baixo custo, em direção ao trabalho convergente na mídia resultante. Para produzir resultados altamente criativos, as estruturas nas quais a interação produtiva ocorre devem ser exploradas e desenvolvidas.      

         Essa "interação estrutural" é importante porque a criatividade inclui inerentemente um componente auto-reflexivo, avaliando a eficácia das estruturas que influenciam a produção (Coughlan e Johnson citam como exemplo a escrita criativa, que envolve períodos de envolvimento e reflexão. A reflexão resulta no desenvolvimento de restrições, impulsionando a produção de ideias durante o engajamento).  Então, finalmente, a criatividade deve ser considerada além do desempenho em tarefas focadas individuais. A compreensão da “interação longitudinal” é essencial porque ideias, inspirações, experiências e relacionamentos se desenvolvem por longos períodos, afetando processos e resultados e exigindo formas distintas de suporte. Associar ideias e inspirações para uso posterior no contexto correto, reter estruturas e resultados, e construir e manter relações sociais e de colaboração requer apoio a longo prazo.

          Criatividade, uso de tecnologia e processos de aprendizagem nos remetem a Resnick (2007), que argumenta que a “abordagem do jardim de infância para a aprendizagem” - caracterizada por um ciclo espiral - Imaginar, Criar, Brincar, Compartilhar, Refletir e de volta ao Imaginar - é ideal para as necessidades do século XXI, ajudando os alunos a desenvolver habilidades de pensamento criativo que são críticas para o sucesso e a satisfação na sociedade de hoje. Na proposta de Resnick podemos enxergar os elementos do “flow” de Cziksentmiyalhi, da reflexão na ação e sobre a ação de Schön, permeando ambientes onde os tipos de interação produtiva, estrutural e longitudinal de Coughlan e Johnson estão presentes.  Em continuidade à tradição construcionista de Papert (1980), a “aprendizagem criativa” é uma abordagem educacional que atualiza e expande a realização de projetos com significado pessoal (aprender fazendo), aumentando o potencial de conceitos que podem ser explorados (com e sem tecnologias computacionais), o papel da colaboração e do compartilhamento (entre pares),  e a construção de comunidades (em torno da aprendizagem criativa).

          As contribuições nesta edição da Revista TSC ilustram o tema da “aprendizagem criativa” em suas diferentes facetas, mostrando os vários sentidos construídos para o conceito em sua teoria e sua prática.  O leitor é nosso convidado a buscar nos trabalhos os elementos que caracterizam a criatividade em seus espaços, seus artefatos, seus processos de interação e aprendizado.

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Biografia do Autor

Maria Cecília Calani Baranauskas, Instituto de Computação – UNICAMP

Editora da sessão de artigos científicos.

José Armando Valente, NIED & Instituto de Artes – UNICAMP

Editor Chefe

Publicado
17/12/2019